Partido conservador vence eleições gerais na Tailândia
Domingo, no dia 8 de fevereiro de 2026, a Tailândia realizou sua primeira eleição geral desde 2023. Os eleitores foram convocados a eleger os 500 deputados que, por sua vez, escolherão o primeiro-ministro do país. Surpreendentemente, o Partido Bhumjaithai, o partido conservador, foi o vitorioso, derrotando o Partido do Povo, apontado por muitos como o favorito. Neste texto, vamos procurar entender o que houve nas eleições deste ano e o que isso significa para o futuro da Tailândia.

A situação política tailandesa desde 2023
Assim como o Brasil, a Tailândia possui inúmeros partidos políticos que estão sempre trocando de nomes (e ideologias). Impera uma baixa fidelidade partidária, com políticos mudando de siglas de acordo com suas conveniências. Há, entretanto, dois partidos mais à esquerda no espectro político que são relativamente estáveis e que são importantes para se entender a política tailandesa: o tradicional Pheu Thai, e o mais recente e popular Partido do Povo (antigo Gao Glai). Esses dois partidos foram os mais votados nas eleições de 2023, elegendo a maioria dos deputados: 292 do total de 500. Entretanto, foram impedidos de formarem governo, uma vez que o Senado Biônico (escolhido pelos militares) vetou um governo liderado pelo Partido Popular – considerado muito radical pelos conservadores. Como resultado, o Pheu Thai (esquerda mais centrista) foi liberado para formar um governo, com a condição de dividir o poder com partidos mais à direita, numa manobra para bloquear a esquerda mais radical.

O Pheu Thai formaria, em 2023, um governo de coalizão de centro, mas marcado por instabilidades crônicas. A coalizão era frágil, e o Pheu Thai tinha dificuldade de governar. Nos bastidores, as elites conservadoras apenas suportavam o Pheu Thai porque o Partido do Povo parecia mais ameaçador, o que não significava que o governo era o ideal para o stablishment. Depois de altos e baixos, o primeiro ministro Srettha Thavisin acabou sendo deposto pelo Tribunal Constitucional depois de apenas 358 dias no cargo, sob a alegação de que ele teria violado a ética ao ter escolhido para ministro um político que fora acusado por corrupção anos atrás.
O Pheu Thai, entretanto, se manteve no poder, indicando como primeira ministra Paetongtarn Shinawatra, filha do famoso ex-primeiro ministro Thaksin Shinawatra. No entanto, assim como seu antecessor, Paetongtarn ficou pouco tempo no cargo, sendo deposta pelo mesmo Tribunal Constitucional durante a crise política de julho-agosto de 2025, quando ela foi considerada culpada por supostamente comprometer a segurança nacional. Sua condenação se deu devido ao escândalo causado pelo vazamento na internet de um ligação entre ela e Hun Sen, primeiro-ministro do Camboja. Na ligação, Paetongtarn afirma que queria a paz entre Tailândia e Camboja e critica o ufanismo exacerbado do exército tailandês, que estava usando o conflito fronteiriço com os cambojanos para reafirmar o nacionalismo militarista.

Após a destituição da primeira-ministra Paetongtarn pelo Tribunal Constitucional em agosto, o político conservador Anutin Charnvirakul fez um acordo com o Partido do Povo, que detinha a maior bancada do Parlamento. Uma vez que este partido de esquerda não tinha chances de formar um governo por ser considerado radical demais, Anutin propôs um governo liderado por seu partido, o conservador Bhumjaithai. Em troca do apoio do Partido do Povo, Anutin se comprometia a concretizar aquilo que o Partido do Povo mais queria: a elaboração de uma nova Constituição que substituísse a atual – escrita pelos militares golpistas de 2014. O Partido do Povo aceitou a oferta, e cedeu os votos necessários para que Anutin fosse eleito o novo primeiro-ministro, o que ocorreu em 5 de setembro de 2025.

Uma vez empossado como primeiro-minstro, Anutin resolveu antecipar as eleições, que foram convocadas para 8 de fevereiro deste ano e, numa grande virada de expectativas, não apenas venceu o pleito como elegeu mais deputados que o Pheu Thai e o Partido do Povo juntos! O Bhumjaithai conseguiu 193 deputados, contra 192 dos dois partidos de esquerda (resultados parciais de 10 de fevereiro de 2026). Mas o que houve em tão pouco tempo (entre setembro de 2025 e fevereiro de 2026) para que um partido pequeno como o Bhumjaithai crescesse tanto? E por que os partidos progressistas decaíram tanto? O Partido do Povo realmente teve menos votos que o Bhumjaithai? Houve fraude? Qual será o futuro da Tailândia? Vou tentar responder cada pergunta individualmente.
Por que o Bhumjaithai cresceu tanto?
A resposta para essa pergunta exige que se compreenda um pouco sobre o sistema eleitoral tailandês, bem como a diferença entre Bangkok e outras cidades maiores, por um lado, e o interior, por outro.
Diferente do Brasil, que é um país fortemente urbanizado, a Tailândia é um país rural, com quase metade da população morando no campo. Há poucas cidades grandes, sendo que apenas Bangkok poderia ser considerada grande pelos padrões brasileiros. As demais cidades, como Chiang Mai ou Pattaya, seriam classificadas como cidades de médio porte ou até pequenas no Brasil.
Outra diferença marcante entre Brasil e Tailândia é que nosso país tem um sistema presidencial: quem leva mais votos, ganha e ponto final. Na Tailândia, cujo sistema é parlamentar, nem sempre quem recebe mais votos, leva. O eleitor não vota no executivo (presidente ou primeiro-ministro), mas no legislativo (parlamento), e os deputados é que elegem o novo governante do país.
O sistema parlamentar tailandês tem dois tipos de votação: 1) voto distrital, que é o voto para deputado local – similar ao nosso deputado federal; 2) voto partidário, que é o voto para o partido de preferência do eleitor. Ou seja, o votante tailandês escolhe tanto um deputado local quanto um partido de sua predileção. Não há obrigatoriedade, entretanto, de coincidência entre os dois votos. Na primeira votação, um indivíduo pode escolher um deputado local de um determinado partido, mas votar em outro partido na segunda votação.
Entretanto, vencer o pleito para deputado local é bem mais relevante que vencer a votação para o partido. Enquanto a primeira votação garante 400 cadeiras no Parlamento, a segunda dá direito a apenas 100.
Devido à característica profundamente rural do interior da Tailândia, o voto distrital tende a ser muito mais baseado em relações pessoais do que em ideologias ou preferências políticas. Durante os meses em que esteve no poder, o Bhumjaithai fez o dever de casa: graças ao seu poderia econômico, arregimentou vários políticos de outros partidos locais para as suas fileiras, enchendo seus quadros com candidatos locais previamente conhecidos dos eleitores. Esse eleitor do interior pode até ter simpatia por partidos progressistas, mas prefere votar para deputado em pessoas que ele conhece e que acredita que podem resolver problemas locais. Como resultado, o Bhumjaithai dispunha nessas eleições de muito mais candidatos locais para deputado do que qualquer outro partido, além de alcançar mais visibilidade por ter postulantes mais conhecidos e com imagem mais consolidada perante o público interiorano. Isso lhe deu a vantagem que possibilitou sua vitória nas eleições distritais no interior do país. Em cidades como Bangkok e Chiang Mai, por outro lado, o Partido do Povo venceu, mas não foi suficiente para contrabalançar o interior.
Resumindo: o Bhumjaithai cresceu porque atraiu – através de dinheiro para campanhas e acordos – políticos locais conhecidos pelos eleitores do interior, consolidando um domínio rural que se sobrepôs à hegemonia do Partido do Povo nas cidades e no voto partidário.

Fonte: The Nation
O Partido do Povo realmente teve menos votos do que o Bhumjaithai?
É inegável o declínio de votos obtidos pelos dois partidos progressistas tailandeses. O Partido do Povo elegeu 118 deputados em 2026, bem menos que os 151 de 2023. Em números absolutos, o partido atingiu a cifra de 7,8 milhões no voto distrital e 9,7 milhões no voto partidário, totalizando cerca de 17,5 milhões de votos. Em 2023, os números haviam sido melhores: 9,6 milhões de votos distritais, e 14,4 milhões de votos partidários, totalizando 24 milhões de votos. Ou seja, o partido caiu de 24 para 17,5 milhões de sufrágios. Se formos falar do Pheu Thai, a situação é ainda pior. O partido caiu de 20 milhões de votos totais em 2023 para pouco menos de 11 milhões em 2026!
Podemos refletir sobre quais os motivos para esse declínio. Eu destaco alguns:
1) o erro do Pheu Thai ao aceitar formar um governo em 2023 juntamente com partidos de direita, o que enfraqueceu sua posição perante muitos eleitores, que passaram a vê-lo como traidor da causa progressista;
2) o erro do Partido do Povo em confiar no Bhumjaithai, dando a Anutin a chance de ser primeiro-ministro, o que lhe possibilitou construir a hegemonia no interior do país e anular a preferência pelas esquerdas nas cidades e no voto partidário;
3) o crescente estranhamento entre Bangkok e o interior, que parecem estar cada vez mais distantes do ponto de vista de visão de mundo – enquanto Bangkok está mais ideológica e anti-militar, o interior vota de modo menos ideológico e mais pragmático, além de rejeitar menos o militarismo;
4) o desencantamento do eleitor de esquerda, que se decepcionou pelo Partido do Povo ter ganhado em 2023, mas ter sido impedido de governar – o comparecimento às urnas caiu de 75% em 2023 para 65% em 2026;
5) o sentimento nacionalista iniciado pela guerra com o vizinho Camboja aumentou a popularidade dos militares, principalmente no interior e nas províncias fronteiriças – o que favoreceu o Bhumjaithai, que tem uma retórica pró-militar belicosa, em oposição à defesa dos direitos humanos feita pelos progressistas.
6) a divisão entre o Pheu Thai e o Partido do Povo, cujos líderes (e eleitores) odeiam-se mutuamente, ambos se acusando de fazer o jogo da direita, o que enfraqueceu o campo progressista.
O mais curioso, entretanto, é que o Bhumjaithai NÃO foi o mais votado nestas eleições. O partido conservador obteve cerca de 16 milhões de votos totais, ou seja, um milhão e meio de votos a menos do que o Partido do Povo. Mas como é possível receber menos votos e mesmo assim ganhar? Como já expliquei, no sistema parlamentar, nem sempre quem ganha, leva. O Partido do Povo venceu a votação partidária com larga vantagem, mas perdeu a votação distrital, ou seja, seus candidatos venceram em menos distritos. Como a votação para deputado é mais relevante por oferecer mais cadeiras no parlamento, a vantagem do Partido do Povo no voto partidário não tem peso para contrabalançar a derrota no voto distrital (veja na imagem abaixo).

Fonte: https://www.thaipbs.or.th/election69/result/en?tab=summary
É importante frisar que, diferente do pleito de 2023 onde o Partido do Povo foi barrado “no tapetão”, a disposição que determina que o voto distrital vale mais do que o partidário é comum dentro do sistema parlamentarista, e está dentro das regras do jogo. A hegemonia partidária do Partido do Povo se enfraqueceu, mas não desapareceu. Entretanto, a predominância nos distritos passou para o Bhumjaithai. Bangkok e sua região metropolitana, por sua vez, apoiaram o Partido do Povo, dando-lhe a vitória tanto distrital quanto partidária em todos os distritos eleitorais (veja abaixo).

Houve fraude?
O sistema de votação tailandês é antiquado, totalmente feito em papel. No momento em que escrevo esse texto, apenas 94% dos votos foram contados, e o resultado final deve demorar semanas, visto que a contagem é manual. Escândalos de fraude sempre foram comuns no noticiário eleitoral, e dessa vez não foi diferente. Há suspeitas de fraude noticiadas pela imprensa e divulgadas pelas redes sociais, como o episódio do distrito 7 de Pathum Thani, onde teria sido comprovado favorecimento ao Bhumjaithai (a comissão eleitoral nega). Enquanto escrevo esse texto, há suspeita de fraude no distrito 1 da província de Chonburi, o que tem causado protestos da população contra os oficiais responsáveis pela contagem dos votos (veja o vídeo abaixo). Entretanto, as irregularidades parecem ter sido pontuais e não há indícios de que essas eleições tenham sido mais fraudadas do que as anteriores. É provável que o forte desempenho obtido pelo Bhumjaithai no voto distrital tenha sido mesmo o reflexo da vontade do eleitor interiorano. De qualquer forma, veremos nos próximos dias se as denúncias de fraude irão aumentar ou diminuir.
O que será da Tailândia a partir de agora?
O futuro parece incerto. Uma nova constituição será redigida sob a liderança do Bhumjaithai. É provável que ela seja menos autoritária que a constituição militar de 2014, mas nada comparada ao que seria se fossem partidos progressistas liderando o novo governo.
Apesar de conservador, é improvável que o Bhumjaithai tente, por exemplo, reverter a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo. A Tailândia não é um país cristão, o que faz com que temas como esse recebam bem menos atenção dos conservadores do que no Brasil. Tirando os deputados muçulmanos, praticamente ninguém no Parlamento foi contra a lei de matrimônio igualitário.
Por outro lado, algumas propostas democráticas como o fim da lei de lesa majestade (que proíbe críticas à monarquia) e a abolição do alistamento militar obrigatório, não devem ser sequer discutidas pelo governo eleito.
Na região metropolitana de Bangkok há forte clima de velório com a vitória do Bhumjaithai. A tristeza, decepção e até raiva são nítidas nas pessoas e, na internet, xingamentos contra os habitantes do sertão da Tailândia proliferam. Curiosamente, essa situação nos lembra os xingamentos contra o nordeste brasileiro que são vistos nas redes sociais em todas as eleições presidenciais no Brasil. Só que no caso tailandês, é a região mais rica (Bangkok, Chiang Mai, Phuket ) que vota na esquerda e ofende as regiões mais pobres por votarem na direita. O mundo é um lugar estranho, não?
