Quinze Dias: o romance LGBTQIA+ brasileiro que prova que nem todo amor precisa ser uma tragédia

Quinze Dias é um filme brasileiro que mistura comédia dramática, romance e amadurecimento para contar uma história que, apesar de simples em sua premissa, encontra bastante espaço para falar sobre inseguranças, sentimentos e, principalmente, sobre a maneira como enxergamos a nós mesmos e aos outros. Dirigido por Daniel Lieff, com roteiro de Ray Tavares e …

Quinze Dias

Quinze Dias: o romance LGBTQIA+ brasileiro que prova que nem todo amor precisa ser uma tragédia

Quinze Dias é um filme brasileiro que mistura comédia dramática, romance e amadurecimento para contar uma história que, apesar de simples em sua premissa, encontra bastante espaço para falar sobre inseguranças, sentimentos e, principalmente, sobre a maneira como enxergamos a nós mesmos e aos outros. Dirigido por Daniel Lieff, com roteiro de Ray Tavares e …

Quinze Dias

Quinze Dias é um filme brasileiro que mistura comédia dramática, romance e amadurecimento para contar uma história que, apesar de simples em sua premissa, encontra bastante espaço para falar sobre inseguranças, sentimentos e, principalmente, sobre a maneira como enxergamos a nós mesmos e aos outros.

Dirigido por Daniel Lieff, com roteiro de Ray Tavares e Vitor Brandt e baseado no livro homônimo de Vitor Martins, o filme acompanha Felipe (Miguel Lallo) e Caio (Diego Lira) durante as férias escolares. Dois adolescentes completamente diferentes que acabam se aproximando e precisam lidar com sentimentos que, até então, não sabiam muito bem como colocar em palavras.

No elenco, além dos protagonistas, estão nomes como Débora Falabella, Mariana Santos, Olívia Araújo, Mika Soeiro e Bel Moreira. Quinze Dias chegou aos cinemas brasileiros em 18 de junho, mas teve uma passagem bastante discreta pelas salas, permanecendo poucas semanas em cartaz e sendo exibido em poucas cidades e horários. Posteriormente, o filme chegou à Netflix, onde encontrou um público muito maior e passou a ser comparado, inevitavelmente, a produções como Heartstopper, principalmente por abordar sentimentos, descobertas afetivas e os desafios vividos por adolescentes LGBTQIA+.

Mas, antes de falar sobre a importância de uma história como essa, vale olhar para aquilo que o filme entrega enquanto obra.

Quando o “menino perfeito” está longe de ser perfeito

Uma das coisas que mais me chamou atenção em Quinze Dias é a maneira como o roteiro constrói as inseguranças de Felipe e Caio sem transformar nenhum dos dois em uma caricatura.

Felipe está acostumado a se enxergar como alguém fora dos padrões. Ele é um adolescente gordo, tímido e que já aprendeu a criar mecanismos de defesa antes mesmo que alguém possa atacá-lo. Mas existe uma contradição muito interessante nesse personagem: apesar das inseguranças relacionadas ao próprio corpo e à forma como acredita que o mundo o enxerga, Felipe tem uma família extremamente compreensiva e funcional, que oferece a ele um espaço seguro para existir.

Caio, por outro lado, parece ter tudo aquilo que Felipe acredita que gostaria de ser. É o garoto dentro do padrão, bonito e aparentemente seguro que, aos olhos de Felipe, parece ter a vida perfeita. Só que não tem.

Dentro de casa, Caio vive justamente o oposto. Sua família é controladora, suas escolhas são constantemente questionadas e existe uma pressão enorme para que corresponda às expectativas colocadas sobre ele.

É justamente aí que o roteiro encontra uma de suas melhores ideias: aquilo que enxergamos como perfeito quase nunca é tão perfeito assim. Felipe olha para Caio e enxerga o garoto que gostaria de ser. Caio, por sua vez, encontra em Felipe algumas das liberdades que ele próprio gostaria de ter. É curioso perceber como os dois passam boa parte da história desejando características que já existem no outro, sem necessariamente perceber isso.

Essa inversão funciona muito bem porque tira os personagens daquela lógica bastante comum de “o garoto inseguro precisa aprender a se amar” e acrescenta outra camada: todos têm inseguranças, inclusive aqueles que parecem não ter motivo algum para tê-las.

Uma história que sabe ser leve

O roteiro também acerta na maneira como conduz a história. Existe uma fluidez que faz com que o espectador acompanhe os sentimentos de Felipe quase no mesmo ritmo em que ele próprio começa a entendê-los.

Primeiro vem a autoproteção, já que Felipe está acostumado a esperar ataques, rejeições e julgamentos. Depois, a aproximação com Caio começa a desmontar algumas dessas certezas. Surgem a confusão, o medo de interpretar tudo errado e, aos poucos, a percepção de que talvez aquilo que ele tanto temia não aconteça.

Gosto especialmente de como o filme não transforma esse processo em um drama excessivamente pesado. Quinze Dias fala sobre bullying, insegurança, sexualidade, conflitos familiares e relacionamentos, mas não parece interessado em fazer o espectador sofrer durante toda a duração. Existe espaço para o humor e, felizmente, ele aparece com bastante frequência.

Em diversos momentos, é possível simplesmente rir de uma situação absurda, de alguma fala dos personagens ou de acontecimentos que surgem quase aleatoriamente. Isso ajuda a narrativa porque permite que os momentos mais delicados tenham espaço para respirar.

O filme entende que adolescência não é apenas sofrimento. Mesmo quando estamos passando por algo difícil, continuamos fazendo piada, falando besteira, passando vergonha e vivendo situações completamente aleatórias. Quinze Dias consegue capturar justamente essa sensação.

Os personagens secundários também têm espaço

Outro ponto que funciona bastante é a construção dos personagens secundários. Nenhum deles parece existir apenas para cumprir uma função específica dentro da história. Eles possuem suas próprias personalidades, conflitos e relações com Felipe, fazendo com que o universo ao redor do protagonista pareça realmente existir.

Cada relação acrescenta alguma coisa ao personagem e, de alguma maneira, contribui para seu amadurecimento. Mais importante ainda, o filme não transforma o crescimento de Felipe em algo que acontece exclusivamente por causa de Caio.

Caio é fundamental para essa jornada, obviamente, mas Felipe continua sendo Felipe antes, durante e depois daquele romance. E essa é uma diferença importante.

Um verão que parece exatamente um verão

Visualmente, Quinze Dias também sabe muito bem o que quer entregar. A fotografia aposta em uma coloração quente, com aquela estética ensolarada que imediatamente remete ao verão. Mas não é apenas uma escolha bonita. A fotografia conversa diretamente com o roteiro e ajuda a criar a atmosfera da história.

Existe uma sensação de calor e liberdade que combina perfeitamente com aquilo que os personagens estão vivendo. E isso fica ainda mais interessante quando o filme entra na cabeça de Felipe.

A montagem brinca com os pensamentos e fantasias do personagem, criando momentos que fogem um pouco da narrativa tradicional. Isso funciona porque Felipe é justamente um adolescente que tem dificuldade de se expressar para os outros, mas que vive intensamente dentro da própria cabeça.

Acompanhamos não apenas aquilo que ele faz, mas também o que imagina, deseja e teme. Essas inserções ajudam a manter a narrativa dinâmica e evitam que o filme fique preso a uma estrutura excessivamente linear. Quando a realidade encontra a imaginação de Felipe, conseguimos compreender melhor a perspectiva de um adolescente tímido e reservado que, muitas vezes, diz muito mais para si mesmo do que consegue expressar em voz alta.

É uma escolha estética que funciona porque está a serviço da história, e não apenas para deixar o filme “bonito”. Esse cuidado também aparece nas ambientações internas e externas, nos objetos e na maneira como cada espaço conversa com os personagens.

A trilha sonora contribui para essa identidade ao misturar músicas internacionais com uma presença forte da música brasileira. É especialmente interessante encontrar artistas que possuem uma relação próxima com o público queer, como Jão, Chico Chico e Johnny Hooker.

Quando uma história queer pode ser simplesmente uma história de amor

Quinze Dias não inventa o romance adolescente e muito menos é a primeira produção a contar uma história sobre dois garotos se apaixonando. Também não é a primeira produção brasileira queer e espero, sinceramente, que não seja a última.

Mas é justamente aí que o debate fica mais interessante quando olhamos para a recepção de histórias como essa.

Existe uma quantidade incontável de filmes e séries com histórias heteronormativas em que a menina considerada “feia”, gorda, desajeitada e insegura consegue conquistar o garoto bonito, forte, atleta e popular. É uma fantasia recorrente da comédia romântica, e ninguém parece particularmente preocupado em questionar o quanto aquilo seria possível na vida real.

Então, por que a régua muda quando estamos falando de uma relação homoafetiva?

Por que é tão difícil aceitar a ideia de que um menino gay gordo possa se relacionar com outro menino gay dentro dos padrões considerados socialmente desejáveis? Por que, quando essa dinâmica aparece em uma história queer, surge uma necessidade tão grande de compará-la com a realidade, como se a ficção heteronormativa não tivesse passado décadas fazendo exatamente o contrário?

Ninguém assiste a uma comédia romântica heterossexual esperando que cada aspecto daquele relacionamento corresponda perfeitamente à realidade. Mas, quando dois garotos como Felipe e Caio se apaixonam, parece que parte do público sente a necessidade de questionar justamente a possibilidade daquele relacionamento existir.

Talvez esse seja um dos pontos mais interessantes de Quinze Dias. O filme conta uma história conhecida sem transformar seus personagens em estereótipos. Felipe não é apenas “o garoto gordo que precisa aprender a se amar”. Caio não é apenas “o garoto bonito que esconde sua sexualidade”. E o romance entre os dois não existe simplesmente para cumprir uma fantasia.

Eles são adolescentes. Têm medo, vergonha, desejos, fantasias, famílias complicadas, amigos, inseguranças e momentos completamente idiotas. E isso existe.

Nem todo amor queer precisa ser uma tragédia

Talvez seja justamente isso que torne Quinze Dias tão fácil de gostar e, ao mesmo tempo, tão fácil de criticar.

Existe algo curioso na relação do público queer com as histórias que foram produzidas ao longo dos anos. Fomos acostumados a ver personagens LGBTQIA+ associados ao sofrimento: rejeição familiar, bullying, violência, solidão, conflitos e, muitas vezes, à impossibilidade de viver o amor de forma simples.

Então, quando aparece uma história queer que quer ser apenas uma história de amor adolescente, com humor, fantasia, vergonha, frio na barriga e final feliz, parece existir certa dificuldade em enxergá-la pelo que realmente é: uma comédia romântica.

E por que não poderia ser?

Personagens LGBTQIA+ não precisam carregar o tempo inteiro a obrigação de representar todas as dores da comunidade. Também podemos simplesmente assistir a dois garotos se apaixonando sem exigir que esse romance seja uma reprodução exata da realidade.

Quinze Dias não precisa ser realista em todos os aspectos para ter valor. Basta permitir que um garoto como Felipe seja o protagonista de uma história de amor. Que ele seja desejado, amado e escolhido sem precisar mudar quem é para merecer isso.

Ele não precisa emagrecer para viver um romance. Não precisa deixar de ser inseguro. Não precisa passar por uma tragédia para que sua história tenha importância.

E isso, por si só, já diz muita coisa.

Quinze Dias também precisa existir

O filme também ocupa um espaço importante dentro da dramaturgia brasileira. Uma produção queer, com uma história leve, protagonistas adolescentes e uma estrutura de comédia romântica, alcançando um público muito maior depois de sua passagem pelos cinemas e encontrando espaço em uma plataforma como a Netflix, é algo que merece ser celebrado.

Quinze Dias não precisa ser perfeito para ser importante. E talvez nem precise ser a melhor história queer já contada.

Ele só precisa existir.

Porque, quanto mais histórias como essa forem produzidas, menos excepcional será ver personagens LGBTQIA+ vivendo aquilo que personagens heterossexuais vivem há décadas: o primeiro amor, as inseguranças, as fantasias, as descobertas e, principalmente, a possibilidade de simplesmente ser feliz.

Que Quinze Dias não seja apenas um dos poucos, mas um dos primeiros de muitos. E que, daqui para frente, tenhamos cada vez mais histórias queer brasileiras para assistir, discutir, criticar, amar e, principalmente, normalizar.

Ycla Araujo

Ycla Araujo

Oi, eu sou a Ycla! ✨ Formada em Jornalismo e Produção Audiovisual, apaixonada por séries, música e tudo que envolve boas histórias. Minhas reviews são feitas com muito carinho e atenção aos detalhes. Sempre penso bastante antes de dar uma nota, então podem confiar que cada avaliação foi analisada com o coração
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