O alistamento e o serviço militar tailandeses não são o que parecem para os LGBTQIA+

A internet parece amar a Tailândia e um dos termômetros dessa paixão é a popularidade do sorteio do serviço militar tailandês, que se tornou uma espécie de evento canônico dos internautas. Todo ano as imagens de jovens tailandeses candidatos ao serviço militar—principalmente os que são LGBTQIA+—viralizam nas redes sociais devido ao seu caráter aparentemente cômico. Se você por um milagre não sabe do que estou falando, trata-se de uma das etapas finais da seleção anual para as Forças Armadas tailandesas. O postulante deve comparecer em um centro militar onde vai retirar um pequeno envelope de dentro de uma urna. O objeto pode revelar dois cartões, um preto ou um vermelho. A cor preta significa dispensa e alívio para a maioria dos candidatos. A cor vermelha, entretanto, quer dizer que o aspirante a soldado deve até dois anos de serviço militar.

serviço militar tailândes lgbtiqa+
Fonte: https://www.wsj.com/articles/thailands-annual-draft-highlights-growing-unease-over-military-rule-11555579801

A popularidade do evento se dá, em grande medida, pelos personagens gays e trans, que costumam gritar, chorar, desmaiar dependendo da cor obtida no sorteio. Chama a atenção dos internautas não apenas a maneira pitoresca como a loteria ocorre, mas a aparente simpatia dos militares presentes para com a população LGBTQIA+. Os homens fardados não só sorriem, como também parecem se divertir com os berros, ulos, prantos e soluços pra lá de teatrais dos postulantes gays e trans. Pra se ter uma ideia do tamanho da coisa, um militar fica responsável por segurar o candidato para impedir que ele, caso venha a desfalecer, venha ao chão depois de receber um cartão vermelho. Além disso, a plateia presente vibra à medida que o sorteio avança, reagindo não só à cor sorteada como também à resposta corpórea, vibração, síncope ou tremelique dos pretendentes ao serviço militar.

Visto de longe, esse acontecimento parece um grande show de quem dá mais close, e tudo dentro dos barracões das Forças Armadas tailandesas. A imagem que fica é a de um país acolhedor, aberto, que respeita as diversidades. A maioria dos comentários dos internautas brasileiros nos posts que tratam do tema evidenciam isso: quase todos elogiam as Forças Armadas tailandesas por sua empatia e acolhimento aos LGBTQIA+. Tem gente que vai mais longe e diz que gostaria que o Brasil tivesse um sistema de seleção para novos soldados no mesmo estilo. Lembro de ler um comentário de uma pessoa que dizia que o sorteio era igualitário para todos, sendo um sistema de alistamento mais justo que o nosso.

A questão é que—e eu serei bem direto—essa reputação de respeito à diversidade e à isonomia do sistema de recrutamento militar da Tailândia é simplesmente falsa. Primeiro porque o processo de alistamento tailandês não é tão receptivo aos LGBTQIA+ quanto parece, e segundo porque o sorteio em si está envolto em elementos subterrâneos que fazem com que ele seja, em algum sentido, uma grande encenação. A seguir, eu vou explicar o que quero dizer com essas afirmações. Farei isso usando as histórias anônimas de tailandeses que cruzaram meu caminho e que me confidenciaram sobre suas experiências no processo de alistamento militar. Não posso citar seus nomes por questão de segurança, mas para melhor fluidez do texto, vou usar pseudônimos: João, Pedro, Marcos e Rafael. Como os relatos não são tão recentes e foram colhidos ao longo de vários anos, as falas aqui reconstituídas não constituem citações integralmente fidedignas do que me foi dito, mas reproduções das ideias e sentidos que eles exprimiram.

serviço militar tailândes lgbtiqa+
Fonte: https://www.eastbaytimes.com/2017/04/05/drafted-photos-of-thailands-annual-military-draft-lottery/

João

Anos atrás, quando eu ainda era professor de Ensino Médio, comecei a perceber que os alunos do sexo masculino não compareciam às aulas às quintas-feiras. Eu chegava para ministrar meu curso de Estudos Sociais e me deparava com uma sala completamente feminina e com bem menos alunos que o habitual. Na Tailândia, a gente que é docente se acostuma ao fato de que sempre há alguma atividade extra-curricular rolando durante as classes e que, portanto, é normal que muitos alunos não compareçam à sala de aula com frequência. Portanto, eu nem ligava mais ao perceber que só metade de uma turma estava presente. Era absolutamente corriqueiro e normal. O que eu demorei a perceber foi a peculiaridade das quintas-feiras. Só os meninos sumiam e as meninas sempre estavam presentes.

Um dia eu descobri a verdade quando falei com o João, um dos alunos que “desaparecia” às quintas-feiras. Ele sorriu, ficou contente de poder explicar algo sobre a cultura tailandesa que eu não sabia: “Toda quinta-feira a gente vai pra um acampamento militar para treinamento”. Minha perplexidade deve ter transparecido no meu rosto, pois ele riu e perguntou: “Algum problema?”. Eu respondi que estava surpreso, pois não imaginava que os adolescentes tailandeses amavam tanto as Forças Armadas a ponto de sacrificar horas de estudo pra ir participar de treinamento militar. A resposta dele, num tom mais sério, me deixou mais curioso ainda: “Mas a gente não gosta das Forças Armadas, professor. A gente odeia! Vamos nesse acampamento militar porque não queremos participar do sorteio de alistamento, essa é a melhor forma de escapar!”.

Alunos do ร.ด. Fonte: https://pantip.com/topic/37185981/desktop

A última palavra, “escapar”, ficou rolando dentro da minha cabeça como se fosse uma bola de sinuca que fica correndo de lá pra cá, se recusando a cair na caçapa. “Como assim escapar?”, perguntei. João, um menino curioso e simpático de uns 17 anos e que tinha um óculos redondo que o fazia parecer um Harry Potter asiático, me explicou que há algumas maneiras de “burlar o sistema” dentro da lei ou fora dela. Os treinamentos que ocorriam toda quinta feira e que faziam meus alunos “sumirem” eram uma dessas maneiras de escapar dentro da lei. Trata-se do sistema ร.ด. (se pronuncia Ró Dó), abreviação de นักศึกษาวิชาทหาร, geralmente traduzido como Territorial Defense Student ou Reserve Officer Training Corps (ROTC). É um programa de treinamento militar para estudantes do ensino médio e superior que, na prática, funciona como uma das principais vias legais para evitar o sorteio do serviço militar obrigatório. O programa é administrado pelo comando territorial do Exército tailandês e é ofertado para estudantes com cerca de 15 e 22 anos. O aluno continua estudando normalmente, mas frequenta um treinamento militar paralelo. Se completar três anos de serviço, ele fica dispensado do sorteio de conscrição.

Uniforme do นักศึกษาวิชาทหาร desde 2014. Fonte: Wikipédia.

João, revirando os olhos, ainda me esclareceu que nem todas as escolas ofereciam esse serviço, apenas as mais ricas e influentes, o que fazia com que o sorteio militar não atingisse as elites e classes médias altas, que podiam pagar por colégios caros. Essa informação me fez pensar sobre como deveria ter sido difícil a minha vida se eu tivesse nascido tailandês. Eu certamente não teria dinheiro pra escapar do sorteio legalmente. A escola onde eu lecionava na época cobrava cerca de 50 mil baht de mensalidade, o que dá hoje em dia cerca de 7.800 reais. Ou seja, meus alunos tinham a opção de fugir do sorteio do alistamento devido às suas condições econômicas privilegiadas. Mesmo assim, João continuou, eles ainda eram obrigados a perder preciosas horas de estudo às quintas-feiras para participar de “exercícios chatos e repetitivos que não serviam para nada”. Olhei bem no fundo dos olhos dele—um aluno tão inteligente e estudioso e que se preocupava com o vestibular— e perguntei se valia a pena perder matéria escolar para poder evitar o temido sorteio. Ele nem pestanejou: “O sacrifício compensa. O serviço militar de verdade é muito mais violento e toma a sua semana toda, não apenas a quinta-feira. É um bom negócio”.

Quando ouvi falar em violência, perguntei mais detalhes e João me disse que as Forças Armadas eram conhecidas por vários casos de tortura e até mortes dentro dos quartéis. Muitas das vezes, os militares se recusam a punir os assassinos e torturadores. “Por isso todos tentam escapar. Tenho sorte porque meus pais podem pagar por esse privilégio. Tenho pena de quem não pode”.

Depois disso mudamos de assunto e conversamos sobre nossos animes japoneses favoritos.

Anistia internacional (2020).

Pedro

Pedro é um rapaz LGBTQIA+ afeminado que se considera não-binário. Tem unhas e cabelos longos e pintados, e gosta de cantoras pop e concursos de beleza—mas usa um nome masculino porque prefere (por isso estou usando Pedro e Ele neste texto). Ele me contou com muito terror os momentos “mais tensos de sua vida”, quando passou pelo processo de alistamento militar.

Indivíduos trans podem ser dispensados do serviço militar obrigatório, desde que se apresentem ao centro de recrutamento portando documentos hospitalares providenciados por um médico certificado pelo sistema de alistamento que comprove que o paciente “tem um gênero diferente daquele que foi designado ao nascer”. Em caso positivo, haverá a dispensa.

Pedro me contou a saga que enfrentou ao tentar adquirir a dispensa pela via médica. Não havia a possibilidade de pedir um certificado a nenhum médico conhecido, visto que nenhum deles era credenciado. Os militares não pareciam se importar com moradores do interior, uma vez que não havia opções disponíveis em certas localidades, e ele tinha que viajar mais de 100km para chegar à clínica credenciada mais próxima. Havia ainda uma barreira mais difícil: seus amigos o alertaram de que muitos médicos só liberariam um certificado de dispensa para mulheres trans que comprovassem o uso de hormônios e que tivessem inserido silicone nos seios. Esse não era o seu caso.

O primeiro médico—na verdade uma médica—comprovou a teoria de seus amigos. “Ela foi bem rude comigo”, contou. “Fiquei mais esperançoso por ser uma mulher, achei que ela seria mais sensível ao lidar comigo, mas me enganei. Ela realizou vários exames de toque, apalpou meu corpo, fez perguntas indiscretas e um tanto humilhantes. Depois disse que eu não estava apto e se recusou a assinar um certificado”.

Pedro não desistiu e decidiu viajar para outro local em busca de um outro médico. A experiência foi tão traumática quanto a anterior. O médico perguntou se ele tomava hormônios e se tinha feito cirurgia para colocar silicone. Ao ouvir uma resposta negativa, o médico foi logo pedindo dinheiro. “Ele disse que se eu pagasse 100 mil baht (mais de 15 mil reais) para ele, sairia com o certificado na hora. Fiquei chocado, disse que não tinha o dinheiro. Ele disse que fazia um desconto e baixou para 60, depois para 40 mil. Mas eu não tinha condições de pagar. Então ele me disse: ‘Boa sorte com o serviço militar’. Saí quase correndo de lá”, finaliza.

Pedro, ainda assim, não desistiu. Na terceira tentativa, sua sorte iria mudar. Persistente, chegou tenso ao consultório e decidiu contar tudo que lhe havia ocorrido nas duas consultas anteriores. Não estava esperando grandes reviravoltas, mas foi o que ocorreu. O médico, um rapaz jovem, se apiedou dele. “Parece que ele tinha uma irmã trans que não tomava hormônios e passou por uma situação similar durante o período de alistamento. Ele disse que eu lembrava a irmã dele, e quis me ajudar”.

Hoje, Pedro comemora o fato de ter escapado do sorteio. “Um milagre”, ele afirma.

Soldados tailandeses fazendo a vigilância em Mae Sot, Tailândia, em 20 de abril de 2024. Imagem: Pimuk Rakkanam/RFA

Marcos

Depois de alguns anos morando na Tailândia e já ciente do sorteio de alistamento e do processo de recrutamento, eu sempre ficava curioso ao conhecer alguém do sexo masculino sobre como fora a sua experiência com as Forças Armadas. Bastava eu ter alguma abertura que eu ia logo perguntando: “Então me conta, você participou do sorteio?”.

Conheci o Marcos num bar em Bangkok, onde ele me foi apresentado por outros amigos. Conversa vai, conversa vem, bebida vai, bebida vem, e eu acabei fazendo a mesma pergunta de sempre. Dessa vez, entretanto, a resposta foi tão rápida e sincera que me surpreendeu. “Eu subornei um militar do recrutamento, por isso não participei do sorteio”.

Repousei o copo de Piña Colada sob a mesa antes de responder: “Subornou como?”. “Paguei 20 mil baht” continuou ele, “Na época, há mais de 10 anos atrás, era muito mais dinheiro do que hoje”. Então disse: “Mas como foi isso? Foi ideia sua? Você ofereceu dinheiro, assim, na lata?”. Marcos tomava goles curtos de cerveja enquanto falava. “Não, no centro de recrutamento onde eu me alistei esse serviço de dispensa é comum. Quase todo mundo que tem dinheiro pra pagar, paga. A gente já se alista sabendo que não vai ser convocado”.

Não cheguei a ficar surpreso pelo esquemão, mas a sua confissão serena e sem o menor sinal de constrangimento me pegou desprevenido. “Mas você não tem receio de falar isso assim, em público, e pra pessoas que você mal conhece?”. Ele deu de ombros: “Ah, eu conheço dezenas de pessoas que, assim como eu, pagaram pra não participar do sorteio. É algo comum mesmo. Claro que eu não vou na televisão falar uma coisa dessas, nem vou postar nas minhas redes sociais, mas eu falo abertamente sobre isso. Todo mundo sabe, não é exatamente um tabu”. Uma dúvida passou pela minha cabeça. “Mas as autoridades militares não tentam coibir esse tipo de prática, ou são elas próprias que estão envolvidas no esquema?”. Ele riu: “Sua pergunta já tem a resposta”.

A mesa inteira riu. Depois disso brindamos ao futuro.

De acordo com a Anistia Internacional, os rapazes já são abusados fisicamente, psicologicamente e até sexualmente durante os exames médicos do processo de recrutamento. Fonte: https://dailyinterlake.com/news/2020/mar/23/amnesty-international-says-thai-military-6/

Rafael

“Eu tirei um cartão vermelho”. Rafael falava com um leve sorriso, como se alguma dor clandestina se escondesse por detrás da sua polidez tailandesa. “Quando ele falou ‘vermelho’, eu primeiro achei que tinha ouvido errado. As pessoas presentes gritavam, e eu não sabia se tinha ouvido direito. Logo ficou claro que eu tinha ouvido certo, e um medo terrível tomou conta de mim. A única coisa que eu pensava era que carma tão ruim eu tinha pra passar por algo assim”.

Essa foi a primeira vez que ele me contou sobre os dois anos em que prestou serviço militar. A primeira vez em dois meses. Ele evitava o assunto. Percebi logo que era um tema doloroso. “Não quero lembrar disso, é passado”. Nos conhecemos pelo Tinder e eu logo notei fotos mais antigas em que ele aparecia, no instagram, com fardas militares. As fotos não demonstravam tristeza ou qualquer sentimento mais profundo. Ele sorria na maioria delas, o mesmo sorriso de dever e serviço que eu vejo todos os dias pendurado no rosto dos tailandeses com quem cruzo nas ruas. Essa é a terra dos sorrisos, você tem que sorrir mesmo quando não quer.

Representação da Anistia Internacional de torturas praticadas nos quartéis tailandeses (2020).

“Por que você sorri nas fotos, mesmo sofrendo tanto?”. Ele está pensativo, os olhos virados para cima, como se analisasse o céu em busca de OVNIs. Finalmente, levantou os ombros: “As fotos não tem culpa do que aconteceu. Não vou punir as fotos por causa deles”. Foi o meu momento de pensar, só que ao invés de olhar para o céu, encarei seus olhos. Ele tinha olhos muito apertados e expressivos. Quando sorria, pareciam dois riscos na horizontal. A tristeza, entretanto, deixava-os com as extremidades curvadas para baixo, como uma meia lua. “E por que não quer que as fotos sejam punidas? Como se pune uma foto?”. A meia lua se acentuou. “Não quero falar sobre isso. Eu fui torturado. Já passou, já passou”. Olhei para ele e disse que não precisava mais falar sobre o tema.

Demorou mais dois meses para o Rafael falar de novo no assunto. Perguntei sobre uma foto que vi no Instagram em que ele estava deitado de barriga para baixo, se rastejando na lama e segurando um rifle. O rosto exprimia esforço e espírito compenetrado. Não sei o que deu nele naquele dia, mas ele decidiu falar. Deu detalhes das torturas, das humilhações, do assédio moral, da homofobia, do quanto ele escondia da família o que havia passado no exército naqueles dois anos.

“Não queria ver minha mãe sofrer. Mentia, dizia que não era tão ruim. Escondia os hematomas das pancadas. Não ia mais na piscina com meu pai para que ele não visse as marcas no meu corpo. Mas as marcas dentro da minha cabeça foram mais difíceis de esconder”. Sua voz saía de dentro da garganta sem emoção, como se fosse um estudante de ensino médio lendo um texto escrito para uma apresentação de seminário. Os olhos, por sua vez, contradiziam a voz e se contorciam de emoções. A meia lua vez ou outra aparecia, substituída pela linha horizontal ou por um arregalo que eu ainda não conhecia. Ele mal piscava, e tinha momentos em que parecia estar num monólogo teatral improvisado, e eu era apenas a plateia.

Perdi a noção do tempo e não sei por quanto tempo ele falou. Quando finalmente se calou, achei que deveria dizer alguma coisa. Senti que só teria tempo para uma pergunta antes que ele se fechasse de novo. Eu o conhecia bem e sabia que sua vulnerabilidade não duraria. Eu tinha que decidir rápido sobre o que falar. Pensei em perguntar do porquê dele não querer punir suas fotos, mas achei que seria uma pergunta mesquinha e egoísta—afinal, eu queria ajudar ele ou apenas satisfazer minha curiosidade? Me concentrei e falei o que achei mais sensato: “Você deveria conversar com seus pais sobre isso e, talvez, procurar ajuda profissional com um psicólogo”. Mas já era tarde, ele já tinha se fechado novamente: “Isso já faz tempo, não adianta pensar nisso. É passado, fui torturado, mas já passou”.

Voltou a vestir o sorriso da obrigação. O corpo, antes envergado e trêmulo, como se tivesse um peso nas costas, tornou a ficar teso e ereto. Levantou-se do sofá, foi pra cozinha, pegou uma bebida na geladeira e voltou para a sala. “Vamos assistir Netflix?”. Percebi que o momento havia passado e não insisti.

Hoje, anos depois, a gente não se vê mais com frequência. Ele se mudou para longe e apenas mantemos contato pelas mídias sociais. Meses atrás, me mandou mensagem. Está feliz com o novo emprego e começou a fazer terapia. Parece que sua vida retornou aos eixos. Às vezes, me sinto tentado a perguntar de novo o que ele quis dizer quando falou que não queria punir suas próprias fotos. Eu nunca esqueci essa expressão. Sentia estranhamente como se aquela frase guardasse algum enigma filosófico-antropológico-místico de alta magnitude que necessitava ser respondido. Todavia, eu sempre me contenho. Quando a curiosidade surge, me convenço de que o assunto é de foro íntimo, e que não tinha o direito de arriscar a saúde mental dele por uma abstração minha. Às vezes é bom não ter uma resposta definitiva. Afinal, a vida dos outros é maior do que qualquer especulação nossa.

Conclusão

Esses relatos representam quatro histórias de vida de pessoas que cruzaram meu caminho nesses anos em que moro na Tailândia. Eu teria mais relatos para contar, mas selecionei os que creio serem os mais impactantes e representativos. Através desses testemunhos podemos ver como o sorteio que aparece na mídia é apenas a ponta do iceberg. Por detrás dele, existe toda uma estrutura social excludente que privilegia os mais ricos e que está longe de ser isenta de discriminação. A loteria era pra ser, em tese, uma consequência do carma de cada pessoa—o budismo pode ser interpretado dessa forma. Acontece que não é o carma que determina coisa alguma aqui, mas sim a capacidade de usar recursos ou influência para burlar o sistema. A maioria esmagadora dos tailandeses não querem servir às Forças Armadas, por isso foi criado um sorteio com a justificativa de que seria mais justo para todos. Entretanto, o dinheiro, a influência e a corrupção fazem com que os mais pobres sejam, majoritariamente, aqueles que participam efetivamente dos sorteios. Na prática, é um recrutamento que encena uma isonomia que não existe.

Não é de hoje que tentam acabar com o serviço militar obrigatório. Desde 2019 há projetos e tentativas de abolir sua obrigatoriedade, mas os conservadores resistem. Antes ainda do debate político, o cinema já tocara no assunto. O filme gay de 2015 “How to win at checkers (Every time)”, traduzido no Brasil como Como Vencer no Jogo (Sempre), retrata justamente a corrupção e desigualdades dos processos de recrutamento militar na Tailândia. Depois de ler este texto, seria uma boa ideia assistir ao filme para ver como os próprios tailandeses enxergam o tema. Leia também o documento da Anistia Internacional de 2020. Garanto que eles abrirão a sua mente para a realidade do mundo, que é bem menos festiva e colorida do que os vídeos engraçadinhos que vemos na internet.

Tiago Ferreira

Mora há mais de 4 anos na Tailândia. É professor universitário de Estudos Hispânicos e Latino-americanos da Universidade Thammasat, segunda mais antiga instituição de ensino superior do país, onde leciona sobre língua portuguesa, história e cultura brasileira.