Íntimo e emocional, nada explica a euforia que é Duang With You

Duang With You constrói, ao longo de seus episódios, uma resposta que vai além da simples identificação emocional. Algo que não sentia há bastante tempo, mesmo com dramas tecnicamente tão bem executados no último ano. Uma sensação, algo no corpo que reagisse ao que via sem ser apenas uma euforia comum por ver uma cena fofa.

Pesquisei bastante e imagino ter encontrado a definição mais próxima: “borboletas na barriga”. Uma resposta fisiológica a emoções intensas, como paixão, ansiedade e expectativa, em que o cérebro reduz o fluxo sanguíneo no estômago, uma definição técnica. Mas a real? Uma injeção LGBT juvenil de ocitocina sendo aplicada um instante após o outro.

Imagem: Reprodução/Domundi TV

Na trama, somos apresentados a Duang (TeeTee), um calouro de artes que vê o tempo parar ao se apaixonar à primeira vista por Qin (Por), um jovem bonitão e descolado do curso de música. A partir disso, o garoto traça uma batalha incansável de tentar conquistá-lo. Só tem um problema: nem mesmo os caras mais bonitos conseguiram dar em cima dele. Felizmente, Duang não desiste fácil, e vai com tudo no plano de deixar o jovem Qin apaixonado por ele.

Duang With You é uma produção da Domundi TV, que entregou no último ano uma das melhores e mais bem produzidas séries, Khemjira (2025), então já era esperado que qualidade não faltasse e, de fato não faltou, sobrou. No primeiro episódio, cheguei até a ficar um pouco receoso sobre como a produção trabalharia com as reações de Duang, que por algumas vezes eram um pouco exageradas, mas que rapidamente se revelou como uma escolha narrativa do ínicio da série, que começa abraçando uma comédia mais escancarada e, aos poucos, vai dosando esse tom, amadurecendo junto com os personagens, e acerta nesse equilíbrio.

Identificação e vivência LGBTQIAP+ em Duang With You

Retomando o ponto inicial: as “borboletas na barriga”. Apesar de jovens, num geral, passarem por momentos de ansiedade em relações amorosas, julgo que isso é carregado de emoções mais fortes quando falamos de corpos LGBTQIAP+, pois somos atravessados constantemente pelo medo da rejeição e da não reciprocidade, isso pela própria sociedade.

Duang With You entende isso.

Seja pela entrega de TeeTee, que traduz essas ansiedades com naturalidade, seja pela direção de Kla Nathawat, que demonstra evolução a cada projeto, ou seja pela interpretação de Por, que aos poucos muda a forma como recebe e reage à essas reações de Duang. O fato é que Duang With You conseguiu, nesse quesito, fazer aquilo que muitos tentam e não conseguem: criar uma identificação real. Mesmo que o público alvo seja diverso, jovens gays puderam se ver ali nesses momentos. Senti como se fosse eu no lugar de Duang, sentindo os mesmos sentimentos e sensações de receber uma resposta do cara que ele está interessado.

Duang With You
Imagem: Reprodução/Domundi TV

Toque como linguagem: o que define um relacionamento gay

Preciso trazer aqui um elemento central que diferencia Duang With You dos demais: o toque.

Me pego questionando por diversas vezes o que as produtoras definem como um relacionamento gay. Algumas produções ainda parecem reduzir isso a entregar uma ou duas cenas de sexo, talvez três beijos, ou quem sabe quatro com frames repetidos durante a série toda, ou às vezes nem isso, e para elas, está de bom tamanho. Mas não, não é isso. Um relacionamento gay é construído com toque, com abraços inesperados, com carinho cotidiano, no ‘xêro’, no encostar de narizes, no conforto de estarem um com o outro. Nada disso é clichê, isso é a realidade. E a série acerta em cheio nesse ponto.

Imagem: Reprodução/Domundi TV

Peço desculpas, mas infelizmente eu não conseguiria contar quantas séries já foram lançadas onde os protagonistas não se encostavam a menos que fosse em momentos “quentes”, ou nem nesses. Mas, felizmente, existem pessoas boas de conta que fizeram um cálculo mais interessante: quantas vezes Duang e Qin trocaram beijinhos durante os episódios desde que começaram a se envolver. 230 vezes1, sim, 230. E esse é só um número aproximado. Desse problema, Duang With You nunca sofreu.

Enquanto muitos BLs tratam o contato físico como recompensa ou clímax, aqui ele é constante e especialmente naturalizado. Casais se tocam, casais se beijam, casais ficam de chamego, e isso é tudo que Duang e Qin fizeram. O destaque vai para o final do episódio 8, em que os dois passam minutos em silêncio apenas se tocando, sorrindo, encostando os narizes. É simples e íntimo. Duang realmente é esse “cachorrinho” afetuoso, enquanto Qin, um urso polar inicialmente mais contido, vai cedendo, e essa dinâmica sustenta a construção do casal.

Afeto e coerência narrativa

Outro acerto importante está na forma como Duang With You retrata o toque entre homens para além do romance. Em muitos contextos do sudeste asiático, o contato físico entre amigos é comum, e quando falamos de relações LGBTQIAP+, isso é ainda mais forte, inclusive aqui no outro lado do mundo, e a série respeita isso.

Logo no primeiro episódio a trama nos apresenta como é a relação de Duang e seus amigos. Eles estão sempre agarrados, próximos, e se implicando constantemente. Pode parecer um detalhe bobo, mas não é. Muitas produções ignoram isso e criam um distanciamento artificial entre personagens masculinos, mesmo em narrativas queer. Em Duang With You há coerência cultural e narrativa.

Duang With You
Imagem: Reprodução/Domundi TV

Família, trauma e construção emocional

No campo emocional, a relação familiar de Duang e Qin foi algo que me tocou muito e adiciona camadas importantes à história. Duang vem de uma família particularmente descrita como mais calorosa, onde todos se abraçam muito, sem frieza e, apesar de haver julgamentos como em toda família, eles lidam com isso de forma diferente, como se fosse uma brincadeira, e reconhecem a dedicação e o amor um do outro.

Já Qin cresce em um ambiente mais rígido e descrita como mais fria, mesmo havendo muito amor, é marcado por uma distância que além de física, também é emocional, algo que seria explicado nos episódios seguintes. A série evita simplificações. Não existe uma família “boa” e outra “ruim”, mas sim formas diferentes de amar, e de falhar.

Tudo então é explicado quando Qin demonstra fragilidade ao revisitar traumas do passado à partir do 6º episódio de Duang With You, onde ele e Duang realizam a sua apresentação. É nesse momento que as barreiras de Qin começam a cair. A negligência emocional, os abusos sofridos na infância por sua babá e a ausência dos pais moldam o personagem de forma profunda. Lembro nitidamente do quanto a fala “o que eu queria mesmo era… um abraço dos meus pais” me marcou, foi impossível não se emocionar.

Mesmo carregados de amor, os pais tomam decisões que, muitas vezes, pensando no melhor aos seus filhos, tem um resultado diferente. Compartilho muito do sentimento de Qin, as ações que sofremos quando crianças nunca são esquecidas, elas moldam nosso ser futuro para sempre. Não há como mudar o passado, o que foi feito, já está feito. Mas como há como ser melhor no futuro, enquanto ainda há tempo. Só o amor pode colar pedaços rachados do coração, mesmo que as cicatrizes continuem lá.

A cena em que Qin segura a mão do seu eu criança e depois o deixa para segurar a de Duang é um dos momentos mais fortes da série. Por Suppakarn, seu futuro dentro da atuação é próspero e brilhante. Espero que você se lembre para sempre que marcou na memória e no coração de várias pessoas que se encontraram dentro dos sentimentos de Qin. Sua delicadeza jamais será passada despercebida.

Imagino que este trecho familiar fique grande, mas não há como não falar sobre isso: Duang é, para Qin, mais do que um namorado. O amor aqui é mais do que só falar, e sim agir. Ele ajuda Qin a se abrir com seus pais, a verbalizar dores que estavam guardadas e a enfrentar um passado que nunca foi resolvido.

Mesmo sem entenderem no início, os pais de Qin retornam verdadeiramente para ele. Pedem perdão. E ver Qin deitado no colo deles, após tantos episódios marcados pela distância física e emocional, é uma virada de chave grande e mostra como o amor ainda é possível nos dias de hoje.

Aspectos técnicos: som e fotografia que aproximam

Tecnicamente, Duang With You apresenta acertos muito consistentes. O design de som é aqui um dos maiores acertos (e não, não estou falando dos inúmeros efeitos sonoros): as respirações, pequenos atritos, sons de toque, dos lábios, dos ‘xêros’ e da proximidade dos dois são utilizados de forma inteligente. Tudo isso trás o telespectador para mais perto dos personagens e daquilo que estavam querendo transmitir.

A fotografia se mantém constante e assertiva ao longo da obra. Não é uma fotografia que busca protagonismo excessivo, mas que sustenta o tom da narrativa e, em alguns momentos, vai além.

As câmeras, inclusive, assumem um papel simbólico dentro da história. Antes mesmo da relação dos dois se elevar, elas já funcionam como ponto de conexão entre Duang e Qin, pois ambos gostam de câmeras analógicas, o que serviu como inspiração para Duang dar seu primeiro presente à Qin como namorados. Ao comprar uma câmera extremamente cara para presentear ele, tiveram sua primeira decisão de “companheirismo”, que exibe como um casal deve lidar em situações como essas: a escolha de dividir o valor entre os dois, para que não ficasse pesado para ninguém, e transformar o objeto em algo dos dois.

Conclusão

Duang With You prova que o problema nunca foi o excesso de BLs universitários, ou que estamos saturados disso. O problema sempre foi a execução.

Ao apostar na intimidade, na naturalidade do toque e em uma construção emocional muito forte, reforçada por decisões técnicas consistentes e uma narrativa bem aplicada, a série se destaca dentro de um cenário lotado por fórmulas mal aproveitadas. Sim, podemos chamar Duang With You como uma série de conforto. Talvez, a série de maior conforto!

  1. (Fonte: @/nompttp no Twitter — que com certeza fez a contagem disputando o sorriso de orelha a orelha com Duang). ↩︎

Kaío Machado

Pesquisador do Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (Lacon/UERJ) e graduando em Comunicação Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Há cinco anos, pesquisa representações queer no cinema e na televisão sul-asiática e seu impacto na cultura pop, soft power e comunidades de fãs.